A artroplastia total do joelho (a chamada “prótese de joelho”) é uma das cirurgias ortopédicas mais realizadas no mundo, e nos últimos anos a tecnologia robótica passou a fazer parte cada vez mais desse cenário. Mas o que, de fato, a ciência já confirmou sobre os benefícios da cirurgia robótica em relação à técnica manual tradicional? Este texto resume, em linguagem simples, o que os estudos mais recentes mostram.

1. O que é a cirurgia robótica do joelho

Diferente do que muitos pacientes imaginam, o robô não opera sozinho. Ele funciona como um “assistente de precisão” controlado o tempo todo pelo cirurgião. Antes da cirurgia, é feito um planejamento com imagens do joelho do paciente, e durante a operação o sistema orienta os cortes ósseos e o posicionamento do implante dentro dos limites definidos previamente, com margem de erro muito menor do que a técnica manual.

2. Alinhamento do implante: mais precisão e menos variação

O alinhamento correto da prótese — entre o fêmur, a tíbia e o eixo da perna — é um dos fatores mais importantes para o sucesso da cirurgia a longo prazo. Um implante mal alinhado tende a desgastar de forma irregular, gerar mais dor e reduzir a durabilidade da prótese.

Uma revisão sistemática recente comparando os dois métodos mostrou que a variação no alinhamento foi bem menor no grupo operado com auxílio robótico (desvio-padrão de 1,6°) do que no grupo operado de forma convencional (desvio-padrão de 2,8°) — uma redução de aproximadamente 43% na variabilidade do resultado final.

3. Menos “outliers”: redução expressiva dos desvios de alinhamento

Na prática clínica, chamamos de “outlier” o caso em que o alinhamento final do implante saiu fora da margem considerada ideal (geralmente mais de 3 graus de desvio). Esses casos são os que mais preocupam, porque estão associados a pior função do joelho e a maior risco de desgaste precoce da prótese.

Os números aqui são expressivos:

No plano frontal (o eixo da perna), apenas 6,7% das cirurgias robóticas tiveram desvio de alinhamento acima do aceitável, contra 21,3% das cirurgias convencionais.

Na rotação do componente (outro fator-chave para o funcionamento correto do joelho), os desvios ocorreram em 8,7% dos casos robóticos, contra 24% dos casos convencionais.

Ou seja: a cirurgia robótica não muda o “alvo” do alinhamento — o objetivo continua sendo o mesmo definido pelo cirurgião —, mas aumenta muito a consistência em acertar esse alvo, reduzindo os casos fora da curva.

4. Menos dano às partes moles e ao osso ao redor do joelho

Outro ponto que interessa diretamente ao paciente é o quanto a cirurgia agride os tecidos ao redor da articulação. Estudos comparando os dois métodos mostraram que a técnica robótica preserva melhor os tecidos moles periarticulares (ligamentos, cápsula e partes moles ao redor do joelho) e causa menos trauma ósseo tanto no fêmur quanto na tíbia durante os cortes.

Essa menor agressão tecidual também aparece em exames de sangue: nos primeiros 7 dias após a cirurgia, pacientes operados com robô apresentaram níveis mais baixos de marcadores de inflamação e lesão tecidual (como PCR, VHS e enzimas musculares) em comparação aos operados pela técnica convencional. Vale destacar que essa diferença é mais evidente na primeira semana — nas primeiras horas e no primeiro mês após a cirurgia, os níveis tendem a se equalizar entre os dois grupos.

5. O que isso significa no pós-operatório

Na prática, esse conjunto de fatores — mais precisão e menos agressão tecidual — se traduz em benefícios mensuráveis no início da recuperação:

Tempo de internação hospitalar menor (em média, cerca de 77 horas no grupo robótico contra 105 horas no grupo convencional, em um dos estudos analisados).

Dor mais controlada nos primeiros dias, com escalas de dor visivelmente mais baixas no pós-operatório imediato.

Nos meses seguintes (entre 3 e 12 meses), alguns estudos mostram vantagem também em escores funcionais, como o “Forgotten Joint Score” — que avalia o quanto o paciente “esquece” que tem uma prótese no dia a dia.

6. O que a ciência ainda não confirma com certeza

É importante ser honesto com o paciente: nem todos os benefícios observados no curto prazo se mantêm no longo prazo. Revisões mais amplas (incluindo uma revisão “guarda-chuva” reunindo várias meta-análises) mostram que:

A vantagem na dor tende a diminuir e deixar de ser estatisticamente relevante após cerca de 6 meses.

Ainda há poucos estudos com seguimento realmente longo (acima de 1 ano), o que limita conclusões definitivas sobre satisfação do paciente e taxa de revisão da prótese a longo prazo.

Parte das diferenças encontradas em escores funcionais, embora estatisticamente significativas, fica abaixo do que se considera uma diferença clinicamente relevante para o paciente perceber no dia a dia.

Isso não invalida os benefícios da tecnologia — a melhora na precisão do alinhamento e a redução de desvios extremos são ganhos reais e bem documentados. Mas mostra que a ciência ainda está construindo as evidências sobre os desfechos funcionais a longo prazo.

7. Conclusão

A cirurgia robótica na prótese total de joelho representa um avanço real em termos de precisão no posicionamento do implante e redução dos casos de mau alinhamento, além de causar menos agressão às partes moles e aos ossos ao redor da articulação — fatores que ajudam em uma recuperação inicial mais tranquila. Os benefícios funcionais a longo prazo ainda estão sendo estudados e parecem ser mais discretos do que os ganhos observados na precisão cirúrgica e na recuperação inicial. A decisão sobre qual técnica utilizar deve sempre ser conversada com o seu cirurgião, considerando o caso individual de cada paciente.

 

Referências

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3. Kayani B, et al. A prospective randomized controlled trial comparing the systemic inflammatory response in conventional jig-based total knee arthroplasty versus robotic-arm assisted total knee arthroplasty. Bone Joint J. Disponível em: https://boneandjoint.org.uk/Article/10.1302/0301-620X.103B1.BJJ-2020-0602.R2

4. Kayani B, et al. Iatrogenic bone and soft tissue trauma in robotic-arm assisted total knee arthroplasty compared with conventional jig-based total knee arthroplasty. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/324053744

5. Robotic-assisted total knee arthroplasty with MAKO is associated with improved functional outcomes. Bone Jt Open. 2025. Disponível em: https://boneandjoint.org.uk/Article/10.1302/2633-1462.611.BJO-2025-0180.R1

6. Redefining Knee Arthroplasty: Does Robotic Assistance Improve Outcomes Beyond Alignment? An Evidence-Based Umbrella Review. J Clin Med. 2025;14(8):2588. Disponível em: https://www.mdpi.com/2077-0383/14/8/2588

7. Robotic-assisted versus conventional total knee arthroplasty: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38133653/

8. Robotic-Assisted Total Knee Arthroplasty: Current Evidence on PROMs, Functional Outcomes, Neuromotor Recovery, and Complications — A Narrative Review. Medicina (Kaunas). Disponível em: https://doi.org/10.3390/medicina62061173

 

Observação: os números apresentados foram extraídos de resumos de estudos publicados e devem ser conferidos nos artigos originais antes da publicação final, especialmente quanto a intervalos de confiança e desenho metodológico de cada estudo (RoB2/ROBINS-I), dado o perfil de revisão crítica que você costuma aplicar.

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