Durante décadas, o tratamento padrão para uma lesão do menisco era simples e direto: retirar a parte lesionada. A cirurgia era rápida, o alívio da dor era imediato e o paciente voltava logo às atividades. O problema apareceu com o tempo — não em semanas, mas em anos.
Hoje entendemos que o menisco não é um “amortecedor descartável”. Ele distribui a carga dentro do joelho, protege a cartilagem, contribui para a estabilidade e ajuda na lubrificação da articulação. Remover parte dele significa transferir mais pressão para a cartilagem, e isso acelera o desgaste que chamamos de artrose. Por isso o objetivo mudou: sempre que possível, hoje buscamos preservar o menisco em vez de removê-lo. E foi a tecnologia que tornou essa mudança possível.
O que mudou: da retirada à reparação
Costurar um menisco sempre foi tecnicamente difícil. O espaço dentro do joelho é pequeno, o tecido é de difícil acesso e os primeiros métodos exigiam incisões maiores e pontos passados “às cegas”, com risco para nervos e vasos ao redor.
A evolução dos dispositivos de sutura por vídeo (os sistemas “tudo por dentro”, ou all-inside), das âncoras e fios de última geração e das técnicas artroscópicas mudou esse cenário. Passou a ser possível reaproximar as bordas da lesão com pontos firmes, por pequenos orifícios, com muito mais segurança e precisão. Na prática, a tecnologia transformou uma cirurgia antes rara e complexa em um procedimento reprodutível — e permitiu preservar meniscos que antes seriam simplesmente removidos.
Mas há um detalhe fundamental, e é aqui que entra a decisão mais importante: nem todo menisco pode ou deve ser suturado. A capacidade de cicatrização depende do tipo de lesão. E é por isso que classificar corretamente a ruptura é o primeiro e mais decisivo passo do tratamento.
Por que classificar a lesão é tão importante
O menisco não recebe sangue de maneira uniforme. A porção mais externa, próxima à cápsula da articulação, é bem irrigada — chamamos de zona vermelha. É um tecido vivo, com aporte de sangue, e por isso tem real capacidade de cicatrizar quando costurado. Já a porção mais interna, a zona branca, praticamente não recebe vaso sanguíneo: sem irrigação, não há como uma sutura cicatrizar de forma confiável.
Além de onde a lesão está, importa também como ela é e por que ela aconteceu. E é justamente aí que separamos dois grandes grupos, com comportamentos e prognósticos muito diferentes.
Lesões traumáticas: as boas candidatas à sutura
As lesões traumáticas ocorrem em meniscos, em geral, saudáveis, submetidos a uma força além do que suportariam — uma torção do joelho no esporte, uma entrada em campo, uma queda com o pé travado. É comum, inclusive, que venham associadas a lesões do ligamento cruzado anterior.
Costumam acontecer em pacientes mais jovens e apresentam características que favorecem o reparo: são rupturas com padrão definido (como as chamadas rupturas longitudinais ou “em alça de balde”), frequentemente localizadas na zona vermelha e em um tecido de boa qualidade. Reunidas essas condições — tecido bom, boa irrigação e um padrão de ruptura que pode ser reaproximado —, a sutura meniscal tem grande chance de sucesso. Aqui, preservar o menisco não é apenas possível: costuma ser a melhor escolha para proteger o joelho a longo prazo.
Lesões degenerativas: quando costurar nem sempre é o caminho
As lesões degenerativas seguem uma lógica oposta. Elas surgem do desgaste natural do tecido ao longo dos anos, muitas vezes sem nenhum trauma — ou após um esforço banal, como agachar. São mais comuns a partir da meia-idade e frequentemente convivem com um início de artrose no joelho.
Nesse cenário, o menisco já não é o tecido firme e elástico da juventude: torna-se mais frágil, com rupturas de padrão irregular (“em retalho”, horizontais, complexas), muitas vezes na zona branca. Costurar um tecido degenerado tem baixa chance de cicatrizar — seria como dar um ponto em um pano puído. Por isso, na maioria dos casos degenerativos, o tratamento inicial não é cirúrgico: fisioterapia, fortalecimento muscular, controle de peso e manejo da dor costumam trazer resultado equivalente ou superior à cirurgia. Quando uma abordagem cirúrgica é necessária, o objetivo e a técnica são diferentes dos casos traumáticos.
Isso não significa que a lesão degenerativa seja “pior” ou “sem solução” — significa apenas que ela pede um plano de tratamento próprio.
O ponto central
A tecnologia nos deu a capacidade de suturar e preservar o menisco com segurança. Mas ela não substitui o julgamento clínico: preservar não é costurar tudo, é costurar o que tem real capacidade de cicatrizar. Entender a diferença entre uma lesão traumática e uma degenerativa, saber em que zona ela está e avaliar a qualidade do tecido é o que define se o caminho é a sutura, o tratamento conservador ou outra estratégia.
Por isso, diante de uma lesão de menisco, a pergunta mais importante não é “vou operar ou não?” — é “que tipo de lesão eu tenho?”. A resposta a essa pergunta é o que orienta todo o resto.
Perguntas frequentes
Toda lesão de menisco precisa de cirurgia? Não. Muitas lesões, especialmente as degenerativas, respondem bem ao tratamento conservador com fisioterapia e fortalecimento. A cirurgia é indicada em situações específicas, avaliadas caso a caso.
Se eu tiver que operar, sempre dá para costurar o menisco? Nem sempre. A sutura só faz sentido quando o tipo de ruptura, a localização e a qualidade do tecido indicam real chance de cicatrização — condições mais frequentes nas lesões traumáticas.
Por que hoje se evita “raspar” ou retirar o menisco? Porque retirar parte do menisco aumenta a carga sobre a cartilagem e, ao longo dos anos, pode acelerar a artrose. Preservar o menisco protege o joelho no longo prazo.
A recuperação da sutura é mais demorada? Sim, geralmente é mais lenta do que a de uma retirada, porque é preciso dar tempo para o tecido cicatrizar. Em troca, preserva-se a função do menisco — um investimento que vale a pena para a saúde futura do joelho.
A idade impede a sutura? Não de forma absoluta. O que mais pesa não é o número no documento, mas a qualidade do tecido e o tipo de lesão. Ainda assim, lesões passíveis de sutura são mais comuns em pacientes jovens.
Conteúdo educativo. Cada joelho é único: o diagnóstico e a conduta devem ser definidos em consulta, com avaliação clínica e exames de imagem.
Dr. Guilherme Abreu — Ortopedia e Cirurgia do Joelho







