Temporada de neve marcada? Antes de descer a montanha, vale entender como esses dois esportes — tão parecidos à primeira vista — machucam o corpo de formas completamente diferentes. No esqui, o alvo preferido é o joelho. No snowboard, são o punho e o tornozelo. Saber disso ajuda você a se proteger melhor.
Qual o risco real?
Os esportes de neve são seguros para a grande maioria das pessoas. Estudos mostram cerca de 2 a 3 lesões a cada 1.000 dias de esqui — ou seja, um esquiador poderia praticar centenas de dias antes de sofrer uma lesão. No snowboard, o risco é um pouco maior, especialmente entre iniciantes: cerca de 90% das lesões acontecem em praticantes de nível iniciante ou intermediário, quase sempre por quedas.
Esqui: o joelho é o grande alvo
No esqui, os pés ficam presos a duas pranchas independentes, com botas rígidas que protegem o tornozelo — mas transferem toda a torção para o joelho. Por isso, 20 a 27% de todas as lesões do esqui acontecem no joelho.
1. Lesão do ligamento cruzado anterior (LCA) É a lesão mais temida do esquiador. Acontece quando o esqui “agarra” na neve e o joelho gira com o corpo desequilibrado para trás — mecanismos que os especialistas chamam de slip-catch e “queda sentada para trás”. Quase metade dos casos vem acompanhada de lesão do menisco. Sinais de alerta: estalo no momento da queda, inchaço rápido e sensação de que o joelho “falha”.
2. Lesão do ligamento colateral medial (LCM) Comum quando as pontas dos esquis se cruzam ou abrem em “V” (a famosa posição de pizza dos iniciantes). Felizmente, na maioria das vezes trata-se sem cirurgia, com imobilização e fisioterapia.
3. Polegar do esquiador A lesão mais comum do membro superior no esqui: ao cair segurando o bastão, o polegar é forçado para fora e o ligamento que o estabiliza (ligamento colateral ulnar) se rompe. Pode representar até um terço das lesões do esqui em algumas séries. Se não tratada, deixa o polegar frouxo e fraco para pinçar objetos.
4. Traumatismos na cabeça: Representam cerca de 9 a 10% das lesões na neve. O capacete reduz a gravidade dos traumas e hoje é usado pela grande maioria dos praticantes — use sempre.
Snowboard: punho e tornozelo na linha de frente
No snowboard, os dois pés ficam presos à mesma prancha. Sem os bastões e sem como “dar um passo” para se equilibrar, o instinto na queda é esticar as mãos — e é aí que mora o problema.
1. Fratura do punho É a lesão clássica do snowboard: o risco de fraturar o punho é até 18 vezes maior do que no esqui. Iniciantes são os mais afetados, principalmente no primeiro dia de prática. O uso de protetores de punho comprovadamente reduz esse risco.
2. Fratura do “tornozelo do snowboarder” Uma fratura de um osso do tornozelo chamado tálus (processo lateral), típica de aterrissagens de saltos. O detalhe traiçoeiro: ela imita uma entorse comum e passa despercebida na radiografia em até 40% dos casos — muitas vezes só a tomografia mostra. Um “entorse” que não melhora após semanas merece investigação, pois a fratura não tratada pode deixar dor crônica.
3. Lesões do ombro Luxações e fraturas de clavícula são frequentes nas quedas sobre o braço ou diretamente sobre o ombro.
4. Traumatismos de cabeça Levemente mais frequentes do que no esqui, pelas quedas para trás e manobras aéreas. Capacete, sempre.
Como reduzir seu risco
Prepare o corpo antes da viagem: fortalecimento de quadríceps, glúteos e core algumas semanas antes faz diferença, principalmente para o joelho.
Faça aulas se for iniciante: a maioria das lesões acontece nos primeiros dias de prática.
Equipamento regulado: a regulagem correta das fixações do esqui (que soltam a bota na queda) protege o joelho.
Proteção específica: capacete para todos; protetor de punho para snowboard.
Respeite o cansaço: muitas lesões acontecem no fim do dia, na “última descida”.
Perguntas frequentes
Machuquei o joelho esquiando e ele inchou. Preciso procurar um especialista? Sim. Inchaço rápido após torção é sinal de lesão estrutural (ligamento ou menisco) até prova em contrário. A avaliação com exame físico e, se necessário, ressonância magnética define o diagnóstico.
Toda lesão do LCA precisa de cirurgia? Não necessariamente. A decisão depende da sua idade, nível de atividade, lesões associadas e grau de instabilidade. Cada caso deve ser avaliado individualmente.
Torci o tornozelo no snowboard e a radiografia foi normal. Posso ficar tranquilo? Nem sempre. A fratura típica do snowboarder pode não aparecer na radiografia. Se a dor persistir além de 2–3 semanas, procure reavaliação — pode ser necessária uma tomografia.
Posso voltar a esquiar depois de uma cirurgia de LCA? Sim, a grande maioria retorna. O retorno seguro costuma ocorrer após 8 a 12 meses, quando força, equilíbrio e controle do movimento estiverem plenamente recuperados — não apenas quando “parar de doer”.
Referências
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Stenroos A, Handolin L. Incidence of Recreational Alpine Skiing and Snowboarding Injuries. Scand J Surg (2015).
Hébert-Losier K, Holmberg HC. Alpine Ski Racing Injuries. Sports Med — mecanismos de lesão do LCA (slip-catch, dynamic snowplow, landing back-weighted).
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Wrist Fractures in Skiers and Snowboarders: Incidence, Severity, and Risk Factors Over 40 Seasons. J Hand Surg Am (2020).
“Snowboarder’s Fracture”: Fracture of the Lateral Process of the Talus. J Am Board Fam Pract (1994) e séries subsequentes.
Rupture of the ulnar collateral ligament of the thumb — a review. J Hand Surg Eur (2013).
Head injury and helmet usage trends for alpine skiers and snowboarders in western Canada, 2008–2018. J Sci Med Sport (2019).
Conteúdo educativo. Não substitui consulta médica. Dr. Guilherme Abreu — Cirurgia do Joelho | @drguilherme.abreu







